POESIA & INSIGHTS
"A poesia não é minha. É como o vento, que só passa através de mim." Chico Xavier

domingo, 25 de abril de 2010

A vida imita um filme



"Como pode você se interessar por mim, se tem uma placa enorme na minha cara listando todos os meus defeitos?"

Essa foi uma pergunta de Emma Thompson para Dustin Hoffman. Nunca lembro o nome do personagem. Nem do filme. Isso que acabo de ver o filme. O problema é a memória, pois já passo dos 34.

E eis os outros ítens da minha placa: sou mãe, sou provinciana, gaúcha, gremista. Já tive um câncer, já levei uns 10 foras. Já fui traída e já surfei ondas enormes na Guarda do Embaú.

Hoje tenho medo de pegar ondas no Arpoador. Vai saber porquê.

Fico brava com facilidade mas, na maioria das vezes, é porque minha vontade não foi feita. Ou seja, sou mimada também.

Simmm! Faço terapia, tomo florais, rezo. Parei de beber, não saio de noite. Comprei um cd numa banca no Saara com 25 músicas que levanta qualquer defunto. E meu carro vira uma discoteca às 8hs da manhã. Ou a hora que eu quiser.

Tenho celulite, meu guarda roupas é uma bagunça. Tenho mania de comprar sapatos e mania de dar roupas e sapatos. Choro com a história dos outros. Não sei apertar parafuso: minha bicicleta está perdendo uma roda e meu abajur pisca mais que olho de nervoso.

Eu podia jurar que era a Miss Simpatia do Rio de Janeiro até ver essa foto aí e minha carinha amarrotada no meio de uma tarde ensolarada de Ipanema. Imagina num dia de chuva...

Digo "não" na lata. E sim também. Fico babona quando amo. E sou teimosa quando acredito em algo. Insisto até que as coisas aconteçam conforme planejado. E quando não acontecem conforme o planejado, eu fico brava. Isso se chama mimo. Acho que já falei desse defeito.

Gosto muito de gastar com comida. Reclamo quando as contas chegam mas dou risada alta no elevador. Assim os porteiros não ficam com medo de mim cada vez que abro a caixinha do correio.

Não sei regras de português: um absurdo para quem estudou na melhor faculdade de jornalismo do país: a Famecos!

Me orgulho de não saber português e a desculpa que dou é que morei a maior parte da minha vida fora do país. Adoro justificar meus defeitos. Isso é outro defeito.

Estou sempre insatisfeita e já encontrei um fio branco nos meus cabelos. Sou brega. Como com vontade e adoro engasgar de tanto rir. Amo viajar. E troco de destino a cada hora.

Penso muito antes de falar mas sempre sou mal compreendida. Sempre.

Sou carinhosa. Um grande defeito nos dias de hoje. Bem, pela foto acima, acho que estou mudando.

Sou romântica. Já tenho guardado o babydoll que vou usar quando meu grande amor chegar. Ele foi ali e já volta. Quero casar na Índia e andar num elefante, quero casar a fazer bagunça em "Vegas" e terminar o ritual numa praia do Rio, descalça, com os amigos íntimos.

E Emma Thompson continuava sua fala depois de ter listado seus defeitos:

"Nascer mulher já parece ser um defeito. Somos muito complicadas! Mas veja só Shine: que graça teria se não tivesse nenhuma de nós colorindo o mundo preto e branco dos homens?"


Ela dá uma gargalhada. E Dustin se apaixona por ela.

domingo, 11 de abril de 2010

Dia 29




-Tudo isso?
Vai passar?

- (Ele) Tudo já passou.

- Mas... e o mar, tão barulhento,
e esse momento,
tão cheio de gente,
tão real?

- (Ele) Já passou.

- E eu?
Meus desejos,
e esse aperto?

- (Ele) Respira.


Me ergo, suspiro, alinho meus ombros - como se fosse só isso.
Tem um sol queimando minhas costas largas.


- (Ele) Está repetindo.


Que agonia, quero sair dessa roda.
Saio mas sempre volto,
como se o sentimento de rejeição me trouxesse pra mais perto de mim mesma.
Ou Dele.


Questiono, tenho raiva desse tempo.
Que faz sol, depois faz vento.
Dói viver presente porque ele não é uma caixinha de surpresas.

Ao invés, tem sentimentos.
Tem dor no corpo.
Quero entender!
Que vontade de correr.


- (Ele) Senta.

- Eu tô sentada!

- (Ele) Senta.

- Pra quê?

- (Ele) Pra passar.

- Eu não quero que passe sem ter existido!
Cadê ele?

- (Ele) Sentado.

- E vai ser sempre assim?

- (Ele) Não.

- E o que eu estou fazendo sentada?

- (Ele) Saindo da roda.

- E ele?

- (Ele) Também.


Meu olho arde,
entre chorar e secar.


- E esse frio horroroso que sinto depois de ter ido mergulhar lá no fundo?

- (Ele) Pra acordar.




Foto: Rain_bow @ 7 something this sun_rainny day @ Arpoador.

domingo, 14 de março de 2010

40 dias e 40 noites de jejum


Estou lá dentro e lá dentro, está aqui dentro.
Porta se abrirá em 24 de abril de 2010.
Até lá... mauna virtual.
Jejum de toda essa parafernália tecnológica.



Foto do salão das 7 janelas, na Academia Hermógenes.

quinta-feira, 11 de março de 2010


"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro.

A real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz."


Platão



foto: Voando com o amigo Moikano. Hoje completo 5 anos de vida.

domingo, 7 de março de 2010

O caos organizado de Deus



- Pessoa está em Del Castilho quando cai uma chuva normal de 40 min.
- Pessoa resolve ir embora, pega a Linha Amarela e a Avenida Brasil.
- Logo mais a frente teríamos uma paradinha de 40 min para subir a Linha Vermelha e uma poça de água que bate na porta do carro.
- Pessoa conversa com seu carro, com promessas de não vendê-lo, caso ele atravesse o mar de esgoto.
- Carro passa e pessoa fica muito eufórica com o carro, comemoram, gritinhos de Uhu e tal, porque meia dúzia de outros carros ficaram pra trás.
- Depois da poça, pessoa anda livremente por 10 minutos, até errar o caminho e cair na Presidente Vargas onde o trânsito está parado de motores desligados.
- Pessoa resolve subir a calçada e ir para a Rodoviária pegar o Santa Bárbara.
- Alguns imitam-a.
- Na Rodoviária, depois de 10 min de trânsito livre, poça e polícia não deixam pessoas chegarem ao Santa Bárbara.
- Pessoa agora decide tentar o Centro, mas cai em São Cristóvão.
- Pessoa está suando e mantrando uns palavrões...
- Numa das ruas enquanto estava totalmente perdida, cai a luz e se depara com uma cascata de água.
- Pessoa começa a procurar hotel ou o que seja, mas amiga por telefone liga e diz que não existe hotel ou motel em SC.
- Pessoa vê um posto BR com outras 50 pessoas e resolve parar por ali.
- Pessoa encontra no porta malas uma galocha muito diva e desce para procurar a loja do posto.
- Pessoa come feito camelo: sanduíche (porque os salgados sumiram), capuccino, grissinis e um charge.
- Às 22hs (já se foram 3 horas), a gerente põe todo mundo pra fora, inclusive crianças de colo, porque não acreditou que 50 pessoas estavam ali porque não tinham como ir para casa. Ela achou que estávamos num big brother.
- Debaixo de uma sombrinha, pessoa é convidada por duas meninas (uma com uma camisa que dizia "Jesus é o único que salva") a ir esperar a chuva passar na Igreja onde elas haviam saído horas antes.
- Pessoa tem uma das noites mais interessantes da vida, conversando sobre jejum, valores, mandamentos que, não por coincidência, são os mesmos da Yoga.
- Pessoa vai para casa 5 horas e meia depois, muito leve.

E eu que no meio disso tudo havia dito ao telefone: "Vou dormir numas dessas igrejas!".
Hare Om! Amém.




*** Foto, menino no porta malas num carro que 7 pessoas, e um adesivo que diz "Deus é fiel".

quinta-feira, 4 de março de 2010

To name a few




Na partida da saia que se parte, não deleta o sentimento que fica em negrito.
O choro entope minhas veias, me adoece, me substima.

Que chato ficar parado, estímulos mais que variados, mais e mais livros e som e cinema com final abstrato.

Que feliz chegar no banco e não ter assento...
Que feliz não ter fila de idosos mas meus pensamentos são tão velhinhos...

Na meia dúzia trocada por um 6 fajuta, minha pele injusta
soluça, com saudade da Índia.

Índia que nem fui, sul que me traiu, norte que me deixa encantada
com pedalar de vento na cara
porque moro num rio que não sorri.

Completa e desnuda, me entrego numa terapia, mas não aflita,
vai me colando com cuspe de outrém.

Vem neném: te sub_julgo na saída, nas minhas lágrimas, na agonia, embriagada com as placas de milhas que distanciam os aeroportos daqueles que não estão mortos.

Mais que dinheiro ofereço um cheiro, um encosto no couro, não do carro, mas da minha alma curtida.

E chega de arranjos arranhados no meu ipod, de notas que fazem sentido quando fecho meus olhos, mas num apelo romântico de entrega nova iorquina, vê minha rima, onde tudo se instalou.

Sai da pista da esquerda, volta pro semáforo onde a gente se esbarrou.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Purnamadah purnamidam


...Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu...



Poema de Rumi, foto de mim. Minha sala cheira a alecrim.